NÓS: Jordan Peele questiona a sociedade americana de maneira original e assustadora

26 mar | 3 minutos de leitura

Confira a crítica sem spoilers

Em 2017 fui ao cinema de maneira despretensiosa para assistir Corra!, filme dirigido por Jordan Peele, alguém que eu só conhecia pelas qualidades humorísticas. Não criei expectativas e me encantei com uma história muito original e mensagens fortíssimas. A partir disso, passei a esperar ansiosamente pelo próximo filme de Peele, e na última semana chegou a hora de assisti-lo. E admirá-lo.

Nós foi lançado na última quinta-feira e cumpriu seu papel com maestria. Jordan Peele se manteve apegado a algumas críticas existentes no seu longa anterior, mas conseguiu criar ainda mais camadas e abordar mais temáticas em Nós, e sem perder a qualidade narrativa. Em determinados momentos, a história parece ser secundária e os questionamentos da sociedade passam a ser os protagonistas da trama, apesar de serem feitos de uma maneira muito simbólica.

Mas o filme funciona mesmo para quem quer ter apenas uma experiência com o terror, sem se preocupar muito com as mensagens. O diretor consegue criar um clima de tensão gigantesco, e sem cair em clichês e soluções fáceis. Além disso, tudo parece ter uma explicação muito maior do que imaginamos. Cada elemento inserido no filme, seja nos diálogos ou visualmente, tem um porquê. Tudo se encaixa e faz sentido.

Não por acaso, o design de produção e o roteiro são dois pontos fortíssimos de Nós. Também vale destacar a trilha sonora impecável feita por Michael Abels. Você fica arrepiado da primeira até a última nota executada, e os sons, como em um bom filme de terror, conseguem aumentar sua angústia em vários momentos. Assim como as atuações.

Lupita apresenta a melhor atuação de sua carreira desde 12 Anos de Escravidão e já aparece como uma das favoritas para o Oscar 2020. A atriz, assim como o restante do ótimo elenco, possui duas personagens e consegue interpretá-las de uma maneira muito convincente e impressionante, com expressões fortes e os movimentos corporais precisos.

Ainda na parte técnica, não podemos deixar de citar a fotografia e a edição. Ambas foram bem planejadas e entenderam perfeitamente o clima e o objetivo do filme de Jordan Peele. A escuridão se une a luzes pontuais para formar dualidades visuais fantásticas, que engrandecem muito as cenas mais aterrorizantes de Nós. O ritmo imposto pela edição contribui ainda mais para a tensão do público, pois sabe utilizar flashbacks nos momentos certos e fazer cortes que aumentam a carga dramática e beneficiam o ótimo trabalho feito pelos atores.

E o roteiro é uma atração à parte.

Jordan Peele venceu o Oscar de Roteiro Original com Corra! e já largou na frente para conquistar o prêmio novamente em 2020. A história de Nós pode ser perturbadora, mas prende a atenção e é extremamente coerente e criativa. Em algumas passagens, Peele até se perde por tentar explicar demais o universo criativo que criou. No entanto, isso não prejudica a experiência.

Nós é um filme com muitas simbologias. É uma obra-prima perfeita para questionarmos as várias faces da sociedade americana, mas que também funciona muito bem apenas como um ótimo longa-metragem de terror. Com elementos típicos de Kubrick, já vistos também em Corra!, Jordan Peele utiliza a ficção para abordar temas importantes e perturbar a mente de quem assiste Nós. Por essa ousadia e por saber como contar boas histórias, o diretor vai se consolidando, aos poucos, como um dos grandes cineastas da geração e vai se tornando um símbolo de representatividade e consciência social na indústria de Hollywood. Ou seja, é uma pessoa fundamental para o momento atual de nossa sociedade.

Afinal, em tempos de “Nós contra eles” é bom saber que um gênio como Jordan Peele é um dos nossos. Azar de quem está do outro lado.

 

Nota: 5/5