Uma crônica em homenagem ao Dia da Língua Portuguesa (05/05)
O motivo eu não sei, mas uma briga estava acontecendo. Onde há fumaça há fogo, mas era impossível dizer quem queimou e quem foi queimado. Eu só podia afirmar que meus vizinhos estavam brigando feito cão e gato. Rosa e César se davam muito bem. Um casal perfeito, nascidos um para o outro. Carne e unha, almas gêmeas. Mas os gritos eram aterrorizantes, e para um bom entendedor, como eu, meia palavra (ou meio grito) bastava para saber que o clima não era bom.
Errar é humano, mas pelo visto Rosa não queria saber disso. “Ridículo”, “você deveria se envergonhar”, entre outras expressões eram berradas por aquela mulher de fibra. Quando um não quer, dois não brigam. Não parecia ser o caso, entretanto. Enquanto Rosa afirmava que as pernas da mentira não são das mais longas, César ficava na defensiva. Afinal um peixe que pode morrer pela boca sabe que nada é melhor do que um dia após o outro.
A discussão se estendeu por mais alguns minutos, até que as vozes se calaram. Completamente. O que teria acontecido? Será que Rosa deu a César o que é de merecimento de César? Fiquei apreensivo. Por um bom tempo. Contudo, quem espera sempre alcança. Pouco depois consegui escutar uma fala, na qual Rosa era direta e reta ao dizer:
– Eu também te amo.
Tudo parecia estar resolvido. Até agora não sei qual foi o motivo da discussão que ouvi. Tentei controlar a curiosidade, até porque, se ela matou o gato, um ser que tem sete vidas, melhor eu ficar na minha. Entretanto, ainda fico me perguntando o porquê desta briga ter sido rápida como um foguete. Será que realmente cão que ladra não morde? Bem, talvez eu nunca saiba essa resposta, mas uma coisa é quase certa: não há rosa sem espinho, e muito menos sem César.