Da impotência sentida perante a doença de seu pai, quando criança, nasceu o sonho de estudar medicina. Constantes na vida, o desejo de ser independente – em todas as definições possíveis da palavra – e a atitude contestadora. Desafio diário e satisfação em ajudar o maior número de pessoas possível. Esta é a dermatologista Alessandra Montenegro.
Ela é personagem da campanha da Twenty Four Seven na Rádio Cidade. A grife, atualmente, promove uma campanha enaltecendo as histórias e conquistas de sucesso de mulheres de Juiz de Fora. Na entrevista a seguir, conheça um pouco sobre sua trajetória e sua carreira.
Como você decidiu que iria trabalhar com a Medicina?
Não venho de uma família em que ter curso universitário era uma realidade. Minha mãe era professora primária e tinha o sonho de cursar a universidade, o que só pôde fazer, com muito esforço, após os filhos estarem maiores. Eu era adolescente na época. Meu pai era cardiopata grave e sua doença impactou minha infância. Embora fosse criança, eu detestava a sensação de insegurança, de não saber o que fazer para ajudar. Logo, fui buscar o conhecimento, que, no caso, era a Faculdade de Medicina.
Como você vê a situação da mulher hoje no Brasil?
É notório que a mulher está cada vez mais se posicionando e ocupando um espaço maior na sociedade. Antes, éramos mãe, esposa, administradoras do lar. Hoje, já somos maioria nas universidades; exercemos profissões que antes eram território exclusivamente masculino; e cada vez mais ocupamos cargos de chefias ou empreendemos em nosso próprio negócio.
Ainda que a atual conjuntura do país seja desanimadora, precisamos ampliar nossa voz. E isto inclui o interesse por política, união e ação. Não posso deixar de me referir ao recente assassinato da vereadora Marielle, do Rio de Janeiro. Aí está a prova de que a voz é uma arma e o dom da oratória é poderoso. Não podemos nos calar. Nós mulheres devemos nos unir, ajudar e cooperar sempre umas com as outras.
Você se sente uma mulher empoderada? Por quê?
Sempre quis ser independente – econômica, social e intelectualmente. Na adolescência adorava os romances com mulheres fortes e à frente do seu tempo. Sempre fui questionadora e, confesso, às vezes até irritante.
Me sinto muito realizada por trabalhar com o que gosto e sonhei, por ter liberdade de pensamento e ações, além de responsabilidade social e civil. Se o empoderamento é ter independência, liberdade e consciência, posso dizer que sim: me sinto empoderada.
Como é servir de inspiração para outras mulheres?
Não viso ser inspiração para outras mulheres. Acho que isto é uma consequência do que você realiza. Do seu trabalho, dos seus atos e da forma como tratamos todos ao nosso redor.
Qual é seu grande medo e como você luta para superá-lo?
Amo a dermatologia, pois ela me permite curar ou controlar doenças. Além disso, cuida da aparência física, que tanto contribui para o nosso bem-estar quanto eleva nossa autoestima. Em geral os latino-americanos são mais adeptos da beleza e fazem maior número de procedimentos estéticos. A indústria da beleza (aí se incluem cosméticos, medicamentos, maquiagens, produtos alimentícios para dietas e suplementação alimentar, aparelhos de ginástica…) movimenta milhões de dólares e interessa a toda classe social. Meu grande desafio atual é exercer este papel de filtrar esta gama enorme de informações que é lançada diariamente em todas as mídias, conseguir orientar as pacientes e fazê-las compreender qual é a melhor opção de tratamento. Claro que não é nenhuma imposição, sempre será uma decisão conjunta.
É importante salientar que os tratamentos são sempre individualizados. Nunca existirá um único produto milagroso que trata inúmeras queixas, bem como a administração de um tratamento igual para todos. Existem as diferenças de idade, textura e fototipo de pele, anatomia facial e etc.
Para tanto, a atualização e estudo são uma necessidade constante em minha vida.
Qual foi seu trabalho mais desafiador?
Após 16 anos de profissão, sendo 14 deles dedicados à dermatologia, posso dizer com tranquilidade que o desafio é diário. E sou muito grata por isto. São os desafios que nos movem adiante. Tive muitos casos que me tocaram emocionalmente. Posso dizer que tive mais alegrias que dissabores.
Como mulher, qual a maior dificuldade profissional que já enfrentou?
Minha maior dificuldade até hoje foi alcançar a minha profissão. Quando se vem de uma família simples, com uma base educacional precária, tendo feito um segundo grau técnico profissionalizante, almejar uma vaga de Medicina na Universidade Federal em uma época em que não existiam cotas foi um grande desafio. Mas foi alcançado com muita dedicação, estudo e perseverança. Depois, vieram as residências médicas. Um tempo de muito trabalho e estudo e quase nenhum lazer. Mas estes períodos me prepararam…
É fácil conciliar a vida pessoal com a vida profissional?
A medicina é uma profissão que te exige muito e você acaba dedicando a maior parte do seu tempo a ela. É difícil desligar completamente. Mas você aprende a conciliar.
Qual é a essência de sua profissão?
O que adoro em minha profissão é o fato de ela me permitir poder ajudar muitas pessoas diariamente. Mas não pense que esta é uma via de mão única. O que torna interessante é que também aprendo muito a cada dia com as experiências de tantas pessoas. Existe uma troca. Tenho muitos pacientes que considero meus amigos e acho que a recíproca é verdadeira.
Você faria alguma coisa diferente em sua trajetória profissional?
Quando olho para trás, não acho que deveria ter feito diferente. Tenho que ter a consciência tranquila de ter feito o meu melhor. Mas sou exigente e me cobro muito, sempre acho que preciso fazer mais e melhor.