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Conheça Ana Luiza Fischer, juíza que atuou em comissão da Reforma Trabalhista

Belo-horizontina, Ana Luiza Fischer é a mais nova de cinco filhos em família tradicional e repleta de engenheiros civis: pai, irmãos, tios, avô e avó – esta, uma das primeiras engenheiras a se formar na UFMG, na década de 1930.

Vive desde 2011 em Juiz de Fora, cidade natal do marido, engenheiro e empresário. Por aqui, teve o primeiro filho, Bernardo. E é também em terras juiz-foranas que exerce a profissão que escolheu para si: a jurisdição. Passou no concurso quando tinha apenas 28 anos.

É bisneta de Heitor Menin, homem que fez com que as filhas fossem à universidade e dirigissem quando isso ainda era totalmente incomum. Tendo crescido com certa indiferença em relação a gêneros, afirma que o caráter, o trabalho e o amor pelos estudos e pela disciplina sempre estiveram presentes em sua educação.

Ana Luiza Fischer é uma das personagens da campanha da Twenty Four Seven na Rádio Cidade. A grife valoriza conquistas e histórias de sucesso de mulheres de Juiz de Fora. Leia, a seguir, uma entrevista com ela.

Ana Luiza Fischer é uma das personagens da campanha da Twenty Four Seven.

Como você decidiu que iria trabalhar como juíza?

A precocidade sempre foi uma marca em minha vida. Entrei cedo, aos 17 anos, nas duas faculdades que cursei (Economia e Direito). Aliás, iniciei o curso de Direito por força de uma liminar, já que ainda não tinha completado o ensino médio quando fui aprovada no vestibular, em ótima colocação. No meu primeiro semestre de faculdade, ia para o colégio de manha e cursava a graduação de Direito à noite.

Ainda antes de me formar, apaixonei-me pela área trabalhista e passei atuar na área, em uma das maiores bancas de advogados do Brasil. Em seguida, assumi a coordenação do setor trabalhista de outro proeminente escritório advocatício de Belo Horizonte. Só saí de lá quando decidi fazer concurso para magistratura. Preparei-me, inclusive financeiramente, para ficar fora do mercado por três anos. Foi uma decisão muito difícil e que exigiu coragem porque na minha família todos atuavam na iniciativa privada e todos, inclusive eu mesma, sempre foram independentes e trabalhavam desde muito cedo. Eu não cogitava em pedir nenhum auxílio para me sustentar e essa “pausa” na carreira não foi bem vista por meus pais e irmãos. Talvez por isso, me cobrei muito e estudava 12 horas por dia. Acabei sendo aprovada no primeiro concurso que fiz em Minas, oito meses depois do início dos estudos.

 

Como você vê a situação da mulher hoje no Brasil?

Acho que a discriminação existe e ela é, de certa forma, universal. Todavia, vejo com muita frequência casos de mulheres que se destacam em sua área de atuação. Vejo, ainda mais, inúmeras mulheres que sustentam suas famílias com seu esforço e trabalho. Penso que o problema maior de nosso país seja de falta de acesso, de forma geral e a homens e mulheres, a oportunidades de educação formal e a vagas de trabalho.

 

Você se sente uma mulher empoderada? Por quê?

O que seria uma mulher empoderada (risos)? Eu me sinto uma mulher realizada, com ainda muito a conquistar, mas satisfeita por ter aproveitado bem as oportunidades que a vida me deu até aqui.

“Discriminação existe e ela é, de certa, forma universal”, diz Ana Luiza.

Qual é seu grande medo e como você luta para superá-lo?

Em relação à vida familiar e profissional, não tenho medos, enxergo desafios. O maior deles, sem dúvidas, é se esforçar para ser melhor a cada dia.

Qual foi seu trabalho mais desafiador?

O ano de 2017 foi especialmente desafiador porque fui convocada para uma missão em um meio de atuação ao qual não estava habituada. Participei, no Congresso Nacional, de uma seleta comissão de redação da Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/17). Após, passei a integrar o Grupo de Trabalho instituído no âmbito da Casa Civil da Presidência da República acerca do tema. Em seguida assumi uma função de confiança na administração do TST (Tribunal Superior do Trabalho), em Brasília, tendo encerrado meu mandato em fevereiro deste ano.

 

Como mulher, qual a maior dificuldade profissional que já enfrentou?

Para mim a grande dificuldade no mercado de trabalho sempre foi ser vista não como mulher, mas como alguém que simplesmente precisa apresentar um bom trabalho, independente de sua condição.

 

É fácil conciliar a vida pessoal com a vida profissional?

Nunca tive dificuldade de conciliar as duas grandes facetas da vida: família e trabalho. Talvez porque eu trabalhe desde os treze anos de idade. Às vezes não é fácil, é preciso fazer escolhas. Mas tudo se ajeita.

 

Você virou juíza muito cedo. Sentiu o peso da responsabilidade?

Sempre tive ciência da responsabilidade de ser magistrada, função que exerço com muito orgulho, dedicação e trabalho, desde a posse. Às vezes, obviamente, eu reflito sobre a extensão da minha função e o efeito que ela pode causar na vida das pessoas. E isso me incentiva a buscar ser o melhor que posso ser.

 

O Judiciário brasileiro é muito questionado. Por que você acha isso acontece?

Na realidade, acho que o Judiciário tem sido o grande protagonista, no bom sentido, de algumas das grandes transformações pelas quais passa nosso país. E isso é, sem dúvidas, reconhecido pela sociedade. O trabalho do juiz difere-se do trabalho dos demais membros de poder. Porque o juiz não depende de – e não deve buscar – apoio popular para exercer seu trabalho. Sua função é restabelecer a legalidade. E isso, as vezes, pode ser muito impopular. Por isso, é muito importante que, em uma democracia amadurecida, o Poder Judiciário seja valorizado e independente.

Loja da Twenty Four Seven em Juiz de Fora (Rua Moraes e Castro, 583, Alto dos Passos).