Capivaras: você deve ter medo delas?
Por Ombrelo
O peculiar roedor é visto com muita frequência em nossa cidade.
Capivaras são mitológicas; lendárias; ícones, símbolos da cidade. Caso o brasão de Juiz de Fora fosse elaborado nos dias de hoje, com toda a certeza ele seria assim:

Brincadeiras à parte, é difícil morar por aqui e ser alheio às capivaras. Principalmente se a sua rotina diária inclui passar pela Avenida Brasil. Isso porque o grosso da população do animal em Juiz de Fora vive às margens do Rio Paraibuna. Mas também tem muita capivara em outros pontos da nossa cidade, como a Represa João Penido.
Diversas são as reações do juiz-forano ao maior roedor do mundo – sim, a capivara pode chegar a pesar 91 kg e medir até 1,2 m de comprimento e 60 cm de altura. Tem até quem ache o bichinho simpático e tente fazer carinho ou tirar selfies. Mas outros têm pavor do bichão, e não gostam nem de ver.
Mas, afinal: há motivos ou não para temer as capivaras?
Para responder a essa pergunta, conversamos com o biólogo Flávio Macanha. Flávio está realizando um estudo com grupos de capivaras que vivem às margens do Rio Paraibuna, em Juiz de Fora. Os objetivos principais são saber mais sobre o comportamento do animal em meio urbano e monitorar sua população. O trabalho está em fase final.
O que as elas comem? Podem querer caçar pessoas?
Capivaras têm dentes incisivos que podem chegar a 7 cm! Mas são herbívoras. Então não existe risco algum de elas enxergarem você, seu cachorro ou sua iguana como um banquete. Seus hábitos alimentares são bastante generalistas, englobando várias espécies de plantas. Falando especificamente das capivaras do Rio Paraibuna, Flávio explica que elas se aproveitam da alta concentração de matéria orgânica na água, proveniente do esgoto doméstico, que favorece o crescimento de gramíneas nas margens do rio, das quais se alimentam. Achou nojento? Pois elas também bebem a água do rio – por falta de uma opção mais limpinha. Grãos, melões e abóboras também podem fazer parte de seu cardápio.

Capivaras são agressivas?
Segundo o biólogo, elas são indiferentes frente ao ser-humano: “Não se aproximam das pessoas facilmente, seja para carinho ou por alimentação, como os saguis ou quatis, que podem expressar tais comportamentos”.
Quem caminha ou passa perto do Rio Paraibuna tem maior probabilidade de dar de cara com uma. Mas sofrer um ataque é bastante improvável. De acordo com Flávio, elas só atacam quando são perturbadas – por pessoas que tentam tirar fotos muito próximas a elas, por exemplo. Então, talvez, aquela ideia de ilustrar seu Instagram com uma foto montando uma capivara com look de blogueiro(a) não seja tão viável assim. O maior risco, entretanto, ocorre quando mamães-capivaras agem em defesa dos bebês: “Por ser um animal carismático e chamar atenção, quando as capivaras possuem filhotes, a população humana acaba se aproximando para ver. O animal possui comportamento de cuidado com os filhotes e pode reagir, atacando as pessoas”, explica o biólogo. Excepcionalmente, algumas das criadas com seres humanos, como em zoológicos, podem até mesmo ser dóceis e amigáveis.

Nessa história, a capivara tá mais é para vítima mesmo. Porque alguns cachorros que perambulam pela cidade apresentam comportamento agressivo em relação a ela: podem avançar, morder e causar estresse, ferimentos ou doenças como a raiva. Isso sem falar nos atropelamentos e na caça por humanos, né?
Podem invadir casas?
Seu habitat natural são florestas que possuem recursos hídricos. Precisam da água para se alimentar, se reproduzir e se exercitar. Flávio Macanha explica que os locais de área verde têm se reduzido muito com a ação humana, e isso faz com que elas migrem para novos habitats, como os centros urbanos, que sejam próximos a lagos e rios, por exemplo. E por lá elas ficam na delas, quietinhas. O único motivo que pode levar uma capivara a se distanciar desses ambientes e se aproximar das vias calçadas é a escassez de alimento. Concluindo: pode ser que você acorde, num belo dia, e dê de cara com um capivara na sua garagem? Pode – e isso já aconteceu, em 2016, em uma casa da Rua Floriano Peixoto! Mas é extremamente improvável. E, como já vimos, caso isso ocorra, é só cuidar para que o bicho não se sinta ameaçado e pedir ajuda ao Corpo de Bombeiros para tirá-lo de lá.

Sua população está crescendo?
Sim, principalmente nas cidades, pela questão da redução das florestas. Os animais mais tolerantes a mudanças, como as capivaras, procuram, como explica Flávio, outros recursos para sobrevivência nos grandes centros, que costumam proporcionar abrigos propícios para elas. Na natureza, as capivaras são presas de animais como onças, cobras e jacarés. Já vivendo em ambientes com ação humana, esse risco não existe, o que é mais um fator que favorece o aumento de sua população. Além disso, elas podem se reproduzir durante todo o ano, tendo, em média, quatro filhotes por ninhada. Haja capivara!

Capivaras transmitem doenças?
Infelizmente, elas podem sim transmitir doenças. Segundo o biólogo, as capivaras juiz-foranas da Avenida Brasil, por serem roedores e estarem em contato direto com o Paraibuna, podem defecar e urinar na água, o que permite a transmissão de bactéria do gênero Leptospira, causadora da leptospirose.
Além disso, ela é um dos hospedeiros primários do carrapato-estrela, que transmite a bactéria causadora da Febre Maculosa Brasileira. Caso a capivara seja infectada e tenha em seu sangue a presença da bactéria, os carrapatos podem picá-la e, posteriormente, alimentarem-se de qualquer hospedeiro acidental, como o ser humano, transmitindo o agente infeccioso, que causa a doença. Ela tem cura, mas deve ser diagnosticada de forma precoce, pois pode até mesmo colocar a vida do paciente em perigo.
Por outro lado, as capivaras também podem pegar doenças típicas da cidade, como a raiva – nos casos que citamos, de mordidas de cachorros – e outras infecções.
