Braza fala sobre tudo em entrevista exclusiva: “Nosso conceito principal é estar todo mundo satisfeito”
Por Daniel Furlan
Banda se apresenta em Juiz de Fora na sexta-feira

Juiz de Fora vai receber novamente o Braza! A banda formada por Danilo Cutrim, Nícolas Christ, Pedro Lobo e Vítor Isensee começou em 2016, após o término do Forfun, grupo do qual Danilo, Nícolas e Vítor fizeram parte por mais de uma década. Rapidamente o Braza conseguiu conquistar muitos fãs, tanto pelas letras extremamente críticas quanto pela junção de várias peculiaridades musicais.
Tivemos a honra de conversar com a banda sobre novos projetos, processos de composição, Forfun, cena musical de JF e outros temas. Confira abaixo a entrevista completa com o Braza e já entre no clima do show que promete agitar o Cultural Bar nesta sexta-feira, 31/08!
Entrevista com a banda Braza
O Braza já veio em Juiz de Fora algumas vezes, e os shows sempre foram muito elogiados pelo público. O que os fãs podem esperar de diferente para a apresentação do dia 31 de agosto?
Tocamos no Cultural Bar duas outras vezes, na turnê dos dois primeiros discos. Temos uma identificação forte com público de JF. Sempre percebemos uma interação forte, de cantar as músicas e participar do show. Um nível acima do que a média dos lugares que costumamos tocar. Não sei explicar muito bem, mas existe essa intimidade e cumplicidade entre o Braza e o público que vai aos nossos shows em Juiz de Fora. Dessa vez estamos indo pra mostrar nossas novas músicas, do EP “Liquidificador”. Lançamos este ano e estamos indo pra mostrá-las ao vivo nessa turnê de inauguração desses sons.
As letras das músicas do Braza possuem críticas e mensagens sociais que a gente não encontram em muitas bandas do mainstream. Para vocês, quais são os papéis da música e dos artistas em uma sociedade?
São papéis variados. Como dizia Ferreira Goulart, ‘a arte existe porque a vida não basta’. A arte vem justamente para trazer essas coisas que não sabemos dizer ou expressar só da forma “sem arte”, digamos assim. Ela pode ter vários papéis. A gente tenta trazer a reflexão e o questionamento, por isso as letras do Braza tem críticas sociais e mensagens com cunho filosófico. Isso porque achamos que a arte também tem esse papel de inquietar o público e provocar alguma mudança no sentido evolutivo, para melhorar e olhar para dentro para se relacionar com o de fora. Mas não tem só esse papel. Tem também o papel do entretenimento e o da curtição. Às vezes de simplesmente expressar amor. Não tem certo ou errado na hora de escrever. Você pode escolher o tema que for, desde que não ofenda e invada a privacidade e o bem estar do outro.
O que é preciso ter para fugir dos clichês musicais e poéticos, que costumam ser “digeridos” mais facilmente pelo grande público, e ainda assim ter sucesso?
Essa pergunta é muito interessante. Outro dia li uma tirinha da cartunista Laerte que pra mim é genial. Ela dizia: “tudo, tudo, tudo é clichê”. Mas é possível mostrar o clichê por outra ótica, por outro ponto de vista. Você consegue, de certa forma, ser clichê e fugir um pouco do clichê. É a grande busca do artista. Musicalmente e poeticamente é um exercício de provocar o público, de pensar por um outro viés. E essa provocação começa no artista com ele mesmo: como vou fazer pra dizer isso que já foi dito milhões de vezes de uma forma original? Não tem fórmula. É sentar, pegar a caneta e o violão, estudar, tentar, criar, falhar, descartar. É preciso ter sinceridade.
Como é feito o processo de criação das músicas do Braza? Vocês são muito metódicos ou deixam a liberdade criativa tomar conta completamente?
O processo criativo do Braza é muito coletivo. Somos metódicos, de certa forma, mas temos uma liberdade grande na hora da criação. Nosso conceito principal é estar todo mundo satisfeito. Todos chegam com ideias de letras e melodias, que vamos aperfeiçoando e juntando. A gente tenta sempre ser fiel aos conceitos que a gente propôs ao Braza desde o inicio. A visceralidade, a dança, a coisa rítmica brasileira, as mesclas, tanto de vertentes da musica jamaicana quanto do Rap e do Hip-Hop, e como isso tudo conversa com a herança cultural brasileira. Então na hora de compôr pensamos sempre nesses conceitos. Mas o processo é muito fluido, acontece de varias formas. Mas precisa ter atenção, porque é fácil cair numa fórmula. É fácil querer repetir o que dá certo. A repetição pode trazer melhoramentos, mas também pode fazer com que você caia em uma monotonia.
É muito comum encontrarmos fãs órfãos do Forfun nos shows do Braza. Existe uma cobrança muito grande para uma reunião futura do Forfun?
A nossa sensação hoje, nos shows e nas ruas, é que está cada vez mais claro que o Forfun é uma coisa e o Braza é outra, e que são projetos diferentes, mesmo tendo alguns dos mesmos integrantes. A cobrança acho que não temos. Temos sorte do nosso público ter uma cabeça aberta no sentido de não cobrar muita coisa e aceitar nossa liberdade artística. Claro que tem gente que fala: “se um dia forfun se reunir…”. Eu sinceramente acho que se um dia o Forfun se reunir, ótimo, mas isso não tem nada a ver e não depende do Braza.
Como vocês lidam com as comparações entre Forfun e Braza?
É natural o público comparar. Guardadas as devidas proporções, não querendo nos comparar de forma alguma, é como alguém já deve um dia ter comparado o Nirvana com o Foo Fighters pro Dave Grohl. Mais uma vez, não querendo nos comparar a essas bandas enormes. A nossa forma de lidar com a comparação é tirar as dúvidas e esclarecer para as pessoas sobre os projetos, deixando claro que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Não é uma mesma banda que mudou de nome. Uma banda é uma banda, outra banda é outra banda. Isso é perceptível na sonoridade, na proposta e nos temas, embora, claro, tenham algumas semelhanças.

Juiz de Fora é uma cidade com muitas bandas autorais. Entretanto, existem poucos espaços culturais e investimentos. Como as bandas devem agir para tentar mudar um pouco esse cenário?
Juiz de Fora tem uma cena muito próspera de Rock, Reggae e Rap. É uma cidade que recebe influências diretas do Rio e de BH, dois pólos de produção de cultura. E JF tá ali, quase no meio do caminho, e de alguma forma isso favorece pra surgir uma cena original, que é perceptível. Os artistas de JF não estão querendo parecer as bandas do Rio e de BH. Eles estão preocupados em fazer um som original. Temos muitos amigos artistas da cidade, como a galera de Strike, Onze 20, os Vigilantes do Rap. A gente fica contente de ver que existe uma cena na cidade. Sobre os espaços culturais, não conhecemos tanto a realidade da cidade, mas acho que, de uma forma geral, no Brasil falta incentivo. Faltam casas de show um pouco menores para bandas que estão começando. Mas, por exemplo, o próprio Cultural em Juiz de Fora é uma casa diferenciada. Não são todas as cidades que têm uma casa com essa estrutura técnica e esse tamanho de médio porte. É um exemplo de que a cidade oferece, de alguma forma, possibilidade para as bandas. Mas, de modo geral, falta incentivo à cultura no Brasil e na América Latina.
O Braza tem lançado um trabalho (álbum completo ou EP) por ano. Em 2019 isso vai continuar?
Sim, estamos nessa pegada de produzir bastante. Lançamos um trabalho por ano, e a nossa ideia é que isso continue em 2019. Com certeza vamos gravar mais, ainda não sabemos se um EP ou disco completo, mas a nossa ideia é continuar lançando uma novidade por ano. Fora os outros projetos que continuam acontecendo. Mês que vem vamos gravar um EP de três músicas em parceria com uma banda parceira nossa, a Francisco, el Hombre. A ideia é sempre produzir material e conteúdo. Temos a pilha de sempre fazer material inédito uma vez por ano, pelo menos. Tomara que continue. Se a gente tiver saúde e grana para pagar a gravação, vai continuar acontecendo em 2019.
Uma pergunta polêmica para terminar. Qual é o melhor trabalho da banda: “Braza”, “Tijolo por Tijolo” ou “Liquidificador”?
Por ser o mais fresco e novo, “Liquidificador”. Mas gostamos de todos. Acho que isso é um bom sinal para o artista. Sempre tem aquela inquietação de querer melhorar, e é isso que move bons artistas. Mas nós temos a felicidade de olhar a breve história do Braza e estarmos amarradões em tudo que fizemos.