Fellet com Fritas: Preço X Valor

20 dez | 1 minuto de leitura
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Foto: Dudu Mazzei

Não é necessário ser um ás em economia para saber o óbvio: preço é diferente de valor. Preço é pagar R$ 6.999 em um iPhone X e ter a liberdade sequestrada pelos tantos aplicativos do aparelho. Eles amestram nosso comportamento, editando o germe humano de que somos feitos. Valor é investir pouco mais de R$ 200 em um potinho de vidro com um microjardim autossuficiente dentro, que só precisa de rega três vezes ao ano e pode sobreviver à espécie humana.

Preço são os zeros à direita de uma matemática que não fecha na conta do governador. Valor é o septuagenário com articulações enferrujadas e fala cansada arrastar sua carroça de doces que variam de R$ 0,70 a R$ 3 e capitalizar “vintinho” ao fim do dia.

Valor é a mulher à minha frente na fila ter 7% de visão, enxergar (literalmente) em preto e branco e soltar este podcast motivacional: “há que se ter alegria sempre”. Valor é o pai deixar o bife maior para o filho que chegou exausto do estágio.

Valor é trocar a preguiça pelo violino; o desafeto pela visita ao asilo; o sedentarismo por 10 km de bicicleta. É dar cinco estrelas para o motorista do Uber que conduz não um automóvel, mas um tapete encantado e, de quebra, capricha na trilha sonora, que vai de Gal a Emílio Santiago.

Preço é um voo doméstico custar R$ 1.600, um brigadeiro gourmet, R$ 6 e o estacionamento de shopping ser cotado em euro. Preço é ter de pagar R$ 15 mil para morrer – este é o custo médio de um jazigo perpétuo. Preço é o dono de uma rede de supermercados esperar o vencimento dos enlatados para doá-los a moradores de comunidades. Preço é o que o Papai Noel inspira, enquanto o mestre transmite valor com sua literatura sagrada.

Nas entrelinhas de toda cifra, há sempre o capital humano que, por vezes, deveria ser designado como desumano. Todo preço tem um valor embutido.